BA: Paciente infarta após uso de antiinflamatório
Um dos antiinflamatórios mais modernos do mercado está sendo responsabilizado por provocar infarto num paciente jovem, sem qualquer histórico de cardiopatia. Uma semana após a ingestão do medicamento Arcoxia (etoricoxibe), em abril de 2007, o capitão da Polícia Militar, Paulo Márcio Ribeiro, 40 anos, sofreu um ataque do coração. Ele havia feito uma cirurgia de Pterígio (retirada de uma membrana avermelhada do olho), e, no pós-operatório, utilizou a medicação por quatro dias, sob prescrição médica. O caso inusitado serviu de exemplo para o Projeto de Lei nº1053/07 do deputado Fernando Coruja (PPS), em tramitação no Congresso Nacional.
A medicação provocou uma reviravolta na vida de Paulo. Corredor de maratona, sem histórico de alcoolismo e tabagismo, o capitão fazia questão de manter os exames médicos em dia, prezava pela alimentação balanceada e se exercitava acompanhado de um personal trainner. Hoje, Paulo toma cinco remédios diariamente. O infarto resultou num cateterismo, uma angioplastia e a introdução de dois stents (prótese inserida no interior da veia para garantir o fluxo sangüíneo na região obstruída) na coronária direita.
Com o arquivo de exames desde 2000, Paulo provou que sempre teve uma saúde impecável. E, com 39 anos, não estava inserido em grupos de risco. “Passei dez dias no hospital. No laudo médico sempre vinha uma observação indicando o uso do Arcoxia. Depois, ficou comprovado que o remédio foi o responsável pelo infarto”, relata Paulo. O motivo para levar o caso a público é a mensagem de alerta. “Hoje vivo em função da prevenção. Tenho uma vida limitada, mas tive sorte de ter sobrevivido”, afirma.
Frustração - “Estava me programando para subir o Grand Canyon, nos Estados Unidos, mas já me disseram que não posso fazer isso nem brincando”, lamenta. Desde que descobriu os malefícios do remédio, Paulo tenta alertar não só a população, mas também a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “A Anvisa se mostrou omissa ao caso. Em outros países, a substância nem foi aprovada porque apresenta riscos de infarto e derrame”, acusa.
A Anvisa informou através da assessoria de imprensa que “o Arcoxia está regular no país, tem registro válido, mas a agência está acompanhando rigorosamente os ensaios clínicos envolvendo esses antiinflamatórios não-esteroidais”.
Estudos realizados pela agência reguladora de medicamentos dos EUA – Conselho Consultivo da Food and Drug Administration (FDA) – apontaram que o Arcoxia aumentaria os riscos de doenças cardiovasculares e resultaria em 30 mil infartos por ano, somente nos Estados Unidos.
Paulo promete mover uma ação contra o fabricante do Arcoxia, o laboratório Merck, que será entregue no Tribunal de Justiça da Bahia. “Além dos danos à saúde ainda gastei uma quantia incalculável. Somente os stents custaram R$60 mil, as ressonâncias R$2 mil cada e são R$700 mensalmente com as cinco medicações”, contabiliza.
Malefícios x benefícios
Os profissionais de saúde reconhecem os malefícios provocados pelos antiinflamatórios, mas reconsideram o uso da droga devido à raridade de casos extremos como o de Paulo. O cardiologista Eduardo Davé, que acompanhou a investigação da causa do infarto, explica que o caso do paciente é bastante particular, já que Paulo é jovem, não tinha fator de risco e usou a dose correta por pouco tempo. Segundo ele, qualquer antiinflamatório pode causar problemas no coração, assim como inchaço, aumento da pressão arterial e insuficiência cardíaca.“Os antiinflamatórios mais recentes, como o Arcoxia, são chamados de COX 2 e diminuem os efeitos gástricos. Em pessoas com histórico cardiovascular, existe o risco de infarto e AVC (derrame)”, esclarece.
O cardiologista acrescenta que o Arcoxia, com composição semelhante ao Vioxx (retirado de mercado)deve ter os benefícios levados em conta. O farmacêutico e Conselheiro regional de farmácia na Bahia, Clóvis Reis, também caracteriza o caso de Paulo como particular. “O risco de infarto é muito baixo”, avalia. Quanto à proibição nos Estados Unidos, ele atribui a “uma questão mais política do que científica”.
O problema principal para o farmacêutico é o prescritor, ou seja, o médico. Na concepção dele, os antiinflamatórios COX 2 deveriam ser indicados apenas para pacientes com histórico de patologia gastrointestinal. “O que vejo é um uso grande nos pacientes com risco cardiovascular. O Arcoxia é mais caro e de reserva terapêutica, mas o lobby das indústrias farmacêuticas influencia na prescrição desenfreada”, opina. As farmácias disponibilizam três dosagens da medicação – 60mg, 90mg e 120mg – que custam entre R$26 e R$35. Não é preciso apresentar receita médica no momento da compra.
MEDICAMENTOS SEMELHANTES
Vioxx (proibido no Brasil desde 2004)
Bextra (proibido no Brasil desde 2005)
Prexige (em avaliação pela Anvisa)
Celebra (vendido nas farmácias) (Maíra Portela - Correio da Bahia)
Fonte: www.unidas.org.br

